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Pois bem, dia 13 de maio. Preparamos o café e pegamos um táxi para a rodoviária de Jerusalém. Sexta-feira, cedinho, parecia algum tipo de feriado. Até as 8h30, pouca coisa estava aberta. Suamos, mas conseguimos achar um táxi. Custou uns 20 shekels até o terminal. Para entrar lá, uma rigorosa inspeção: raios-x, abertura de bagagens… E muitos e muitos militares por lá. Achamos o guichê e compramos nossa passagem para Afula, onde iríamos encontrar nossa amiga Lior Geller, que mora em um kibbutz na região e iria nos levar para passear em Nazaré e Haifa.
O bilhete para Afula custou 31 shekels por pessoa. E foi difícil achar nossa plataforma, já que ali tem pouca coisa em inglês e nosso hebraico continua meio devagar. Pegamos um ônibus legal, confortável, que saiu exatamente no horário. Ônibus em Israel só atrasam por algum motivo grande. Se você estiver na plataforma e o ônibus estiver manobrando, esqueça. Ele não vai parar ou voltar para você. Seja pontualíssimo.
Pelo caminho, paisagens espetaculares. Um panorama das cidades, montanhas, deserto, construções interessantíssimas, instalações militares, prisões – muitas delas mais parecidas com hoteis no Brasil – e uma alternância interessante entre cidades árabes e cidades judias.
Uma hora e meia depois, chegamos na rodoviária da pequena Afula, quase no norte de Israel. Mais soldados – possivelmente todos foram liberados dos quartéis para passar o shabbat em casa, com as famílias. Descemos e encontramos a Lior por lá. Partimos então para Nazaré, cidade árabe que tem a catedral de Nossa Senhora, e também lugar de onde teria saído Jesus Cristo. Ali, pouquíssimos judeus e muitos católicos em peregrinação, em meio a um mundo de comércio e vida árabe.
Muitas vezes perguntávamos aos árabes, como era a relação deles com os judeus e os católicos. Preconceitos e eventuais ódios postos de lado, todos respondiam sempre que, acima de tudo, estava a vontade de fazer ‘business’. Há ainda a categoria dos judeus ortodoxos que, como nos explicou a Lior, são uma categoria à parte. Não participam do estado de Israel e muitos são até contra. Não respeitam as instituições e vivem de estudar a Torá, a bíblia de acordo com o judaísmo. Vivem em pequenos apartamentos, têm muitos e muitos filhos, não encaram ninguém nos olhos e, em alguns casos, são hostis. Assim vivem esses mundos tão distintos, em um pedaço de terra tão importante para praticamente todo homem de fé desse planeta.

Bom, em Nazaré, entramos na catedral, vimos as homenagens à Maria, feitas por católicos de todos os países. Interessante notar que, na versão chinesa, Jesus e Maria são chineses, com olhinhos puxados. Na tailandesa, têm feições e trajes típicos tailandeses. Prova que a fé independe da ciência ou de qualquer imagem que tentem imprimir do messias nazareno…

De lá, partimos para Haifa, importantíssima cidade no norte do país, com um porto absolutamente enorme. Lá, iríamos conhecer os Jardins de Baha’i, uma espécie de seita que simplesmente não admite judeus. Durante o caminho, a Lior foi nos explicando que, sempre que Israel entra em uma guerra, Haifa é severamente bombardeada, como pelo Líbano, uns anos atrás. Tal fato obrigou as autoridades a criarem uma lei determinando que toda nova construção deveria ter uma espécie de quarto-bunker. Quando as sirenes soam e um foguete está perto de atingir a cidade, é hora de correr para o abrigo.


Os Jardins de Baha’i se estendem pela principal montanha de Haifa e são uma visão absolutamente esplendorosa. Com um tratamento impecável, palácios ao longo da colina e um colorido de flores inacreditável, é realmente um sonho. Mas, se você planeja visitá-lo, programe-se. Eles têm horários muito curtos, não abrem todos os dias, fecham para almoço, enfim, um problema. Conseguimos, porém, entrar em alguns de seus setores. E, sobretudo do topo, a vista é de tirar o fôlego: toda a cidade e as cidades vizinhas a nossos pés. Instalações da marinha, o azul incrível do Mediterrâneo, os jardins, estendidos como um tapete até o chão. Enfim, um lugar para parar, apreciar, e curtir. Vale muito a visita!



De lá, como já estávamos perto do pôr-do-sol, partimos para conhecer um kibbutz Beit-HaShita, onde mora a nossa amiga Lior. Antigamente, os kibbutz eram estruturas auto-sustentáveis, praticamente ilhas de comunismo, onde todos trabalhavam em prol do coletivo. Muitos e muitos estudantes, ao longo das últimas décadas, se aventuraram nesses campos israelenses. Mas, nos últimos anos, a estrutura foi ficando onerosa demais para o governo e perdeu seu sentido. Na estrutura tradicional, hoje existem apenas dois ou três. A maioria se aproxima do modelo de microcidades ou mesmo condomínios.
Antes de chegar no kibbutz, a Lior nos levou para mais um lugar de sonho. Uma montanha chamada Gilboa, de onde tivemos uma das vistas mais estonteantes da nossa vida. Os campos israelenses, as montanhas da Jordânia, o deserto e um céu incrível, já ensaiando um espetacular pôr-do-sol. Lugar de turismo praticamente zero, um presente da Lior para a gente.


Depois, conhecemos um pouco da estrutura do kibbutz, com a indústria, a produção de leite, carne e outros produtos. Tivemos um delicioso jantar de shabat, com toda a família Geller, preparado pelo chef que a família tem. Absolutamente nota 10, com destaque especial para os pães preparados por lá. O pão de azeitona estava inacreditável!
Bom, dormimos um pouco, já que teríamos que estar em Telaviv, no aeroporto Ben Gurion, por volta das 3h da manhã. A Lior, que é uma santa, nos levou até lá em plena noite de shabbat, quando seria praticamente uma missão impossível conseguir transporte. Só temos a agradecer a nossa amiga, que nos mostrou um bocado de seu país e como os israelenses são legais e hospitaleiros!
Sair de Israel é tão difícil quanto entrar. Chegue MUITO cedo para seu vôo. Há uma fila enorme para entrar no aeroporto e você responde a um enorme questionário sobre sua estadia e sobre sua bagagem. Muito cuidado com as respostas. Dependendo, você pode ser forçado a abrir toda sua bagagem e mostrar peça por peça para os policiais, isso além das maiores e mais potentes máquinas de raios-x de aeroporto que eu já vi na vida. Tente não perder a paciência e lembrar que isso tudo é para nossa segurança e para que o Estado de Israel continue existindo.
Depois dessa rigorosidade toda, é hora de, enfim, deixar a Terra Santa de volta para Portugal, com uma rápida escala em Istambul. Gostamos muito de Israel, que foi catapultado a um dos nossos lugares favoritos, tanto pela hospitalidade do povo quanto pela organização do país. Ideologias à parte – e seja você contra ou a favor – Israel é maravilhoso para turismar. Recomendo fortemente!
Dicas do dia:
- Viaje de ônibus por Israel. É barato, bonito e rápido. Mas chegue SEMPRE antes do horário
- Não deixe de conhecer Haifa e os Jardins Baha’i
- A saída de Israel pelo aeroporto é tão complicada quanto chegar. Chegue cedo e cuidado com as perguntas
- Nos ônibus e rodoviárias, MUITO cuidado com suas mochilas. Tenha elas sempre perto
- Nos supermercados de Israel se vende guaraná. Mate a saudade!
Na quinta-feira, planejamos fazer o Holy Tour, da mesma empresa do tour pelo Monte das Oliveiras, a New Europe Tours. Custa 75 shekels por pessoa, por quatro horas de um passeio bem legal, com guias ótimos. Comemos um café da manhã pelo caminho, no Sambooki, e encontramos o pessoal no Portão Yaffo, 11h da manhã.
Nosso guia, o Moki, era gente fina, e nos levou por caminhos que ainda não conhecíamos. A primeira parada foi a Igreja do Santo Sepulcro, que já tínhamos ido. Mas com algumas explicações, tudo fica muito melhor. Dali, andamos um pouco pela Via Dolorosa e paramos no Abu Shukri, o melhor falafel de Jerusalém, que tínhamos tentado ir na véspera mas não deu certo. O esquema é: come o que você conseguir, pagando apenas 35 shekels por pessoa. Vem salada, pastas, pita, uma bebida, batatas fritas e falafels, muitos falafels. Deliciosos, realmente. Valeu muito a pena.
Dali, fomos para o Monte do Templo, onde ficam as mesquitas e controlado parcialmente pelos palestinos. É uma área tensa, meio antipática, já que podemos andar normalmente pelas áreas católicas e judias, mas aqui, um monte de restrições mais severas a roupas, comportamento e passeios. Vimos as pessoas rezando, a Al-Aqsa e o Domo de Rocha. Não pudemos entrar, já que o acesso é limitado a muçulmanos apenas. Um pouco de contrasenso, já que é a casa de Deus – sobretudo após entrarmos nas mesquitas de Istambul normalmente. Enfim, não entendo, mas é chato.
Passeamos bastante ali, um lugar espetacular, com vistas impressionantes para Jerusalém e o Monte das Oliveiras. Depois, saímos e fomos notando as placas sobre as portas das casas, parabenizando aqueles que tinham ido para Meca recentemente – uma das obrigações dos muçulmanos. De lá, fizemos mais algumas paradas interessantes pelo caminho e acabamos na tumba do Rei David e na Igreja onde teria acontecido a Última Ceia. Do terraço dali, uma vista espetacular para a cidade – e para o muro que Israel constrói visando a separação de judeus e palestinos.
Em nossa última noite em Jerusalém, era hora do ‘The Best of’. Andamos pelos mercadinhos, compramos souvenirs – pechinchando bastante – e acabamos na feirinha da Rua Yaffo de novo, ali pelas 20h, 21h. Ao contrário do que imaginávamos, a feirinha estava bombando. Muitos e muitos judeus ortodoxos, árabes, uma loucura. Achamos nosso Pasta Basta, comemos mais uma vez ali, dois pratões deliciosos por 60 shekels. Aproveitamos para comprar frutas, pita fresquinho, queijo feta e geleia para o café da manhã da sexta, que seria corrido. A dica é: o mercadinho fica até tarde e é ridiculamente barato. Coma, compre, aproveite muito ali! E o melhor, com poucos turistas. Isso faz a comunicação ficar complicada, já que se fala pouco inglês, mas a linguagem de sinais tá aí pra isso.
Voltamos para o Hostel, preparamos as malas e fomos dormir cedo. O dia seguinte seria de viagem de ônibus, depois de carro, depois de avião.
Dicas do dia:
- Chegue cedo ao checkpoint para entrar no Monte do Templo. As filas são gigantescas
- Ainda no checkpoint, não leve facas, garrafas ou muita coisa em geral. Será confiscado
- Vista-se adequadamente. Mulheres devem usar mangas compridas e homens, não usar bermudas
- Curta bastante esse lugar incrível. Tire fotos, mas aproveite para sentar e sentir esse sítio
- Evite olhar para os guardas e para os muçulmanos, sobretudo mulheres. Brincadeiras, jamais
- Coma, obrigatoriamente, no Abu Shukri. É o melhor lugar da Cidade Velha
- Pechinche muito e não esqueça de falar que você é brasileiro. Mesmo que não seja… =)
- Veja o pôr-do-sol na Cidade Velha. É algo indescritível
Hoje, quarta-feira, dormimos bastante para compensar a noite anterior. Acordamos por volta das 10h e fomos andar na Ben Yehuda daqui de Jerusalém. Logo na esquina, paramos na Steve’s Backpacks Jerusalem, que fica quase na esquina da Ben Yehuda com a Ben Hilal. É uma marca famosíssima entre mochileiros do mundo inteiro, que fabrica uma das mochilas mais resistentes do mundo. Se você é backpacker, certamente já viu alguém usando uma mochila cascuda, com o logo tipo um sol nascente com raios.
Comprei, enfim, a minha, por simplórios 199 shekels – um investimento para a vida toda, creio. Tomamos café na Sambooki, deixamos a mochila no hostel e fomos para o mercadinho da rua Yaffo, aquele, que fica na parte alta. Um mar de cores, sabores, frutas, comidas diferentes… Passeamos por toda a feira, compramos uns morangos gigantescos e umas maçãs belíssimas por preços inacreditáveis. Também é um bom lugar para comprar souvenirs. Botamos duas garrafas de azeite israelense na conta e sentamos no Pasta Basta, a dica da viagem. Uma massinha deliciosa, por preços ridiculamente baixos. Duas porções generosíssimas, com molhos fresquíssimos, por 64 shekels. Quase dois pratos pelo preço de 1 do nosso Spoleto. Sem contar que são muito mais gostosas. Mas se você preferir, na feirinha também tem falafels e comida local. Por precinhos bem amigos.
Bom, de lá, descemos a Yaffo em direção ao Portão Yaffo da Cidade Velha. Ali, encontramos o guia da New Europe Tours para o tour pelo Monte das Oliveiras. Pagamos 75 shekels por cabeça e nos juntamos ao grupo. Depois, pegamos uma sherut (mais 10 shekels por cabeça) para o Al Tour, o alto do bairro árabe ali no Monte. Pelo caminho, visuais deslumbrantes da Cidade Velha.
Descemos e fomos para a Igreja da Ascenção, onde, supostamente, Cristo teria ascendido aos céus depois da ressurreição. Dali, descemos para a Pater Noster, uma pausa para vermos o cemitério judaico, onde ouvimos histórias interessantes sobre as tradições e sobre Menahen Begin, um dos políticos mais importantes da história de Israel.
Dali, descemos para a igreja Dominus Flevit, lugar onde supostamente Jesus teria avistaro Jerusalém pela primeira vez e chorado, ao perceber o comportamento imoral dos cidadãos. Daí o nome, ‘dominus flevit’, o ‘choro do Mestre’. Sua catedral, bizantina, teria a forma de uma lágrima ao contrário, e é uma das poucas igrejas que, em vez de serem viradas para leste, são viradas para Oeste, para a cidade santa. Dica boa é que, dali, se tem uma das visões mais lindas do Domo de Rocha e da Cidade Velha. Se você estiver atrás de uma excelente foto, ali é o lugar para ver tudo, no nascer ou no pôr-do-sol.
Partimos, então, para o Jardim de Getsemane. Esse é um dos lugares mais bonitos da Terra Santa. Oliveiras com centenas de anos adornam esse pequeno oásis no meio desse caos religioso. É pra sentar e curtir o lugar onde Jesus teria feito sua última ceia e dito suas últimas palavras. Esse sim, tem uma atmosfera muito harmoniosa. A próxima parada seria uma das supostas tumbas de Maria. Aqui, é a versão grega ortodoxa que conta. Uma igreja simples, mas com um ar soturno. Vale a visita. Só não entendi o motivo de se jogar notas de dinheiro em mais um suposto túmulo da mãe de Jesus…
Em vez de voltar de táxi para o Portão Yaffo, Eli, nosso guia gente fina, mostrou como voltar à pé, entrando pelo Portão de Lion. Com um casal de amigos holandeses, demos mais um belo passeio pela Cidade Velha, passando pela parte árabe, cruzando a parte católica, parando mais uma vez no muro e voltando à parte árabe, onde iríamos provar o famoso falafel do Abu Shukri (El Wad, 63, perto da estação 5 da Via Dolorosa). Infelizmente, estava fechado, então voltamos para a parte judaica, onde comemos no Schwaurma King – e recomendo, já que estava delicioso. Do lado, você pode comer uma Holy Bagel, mas ali tem massas, burgers e tudo mais. Bom lugar para quem se assustou com o lado árabe.
Dali, como já era bem parte, pegamos a famosa El Wad, cruzamos para a parte armênia, saímos pelo Portão Yaffo. Pegamos nossa rua Yaffo com nossos amigos holandeses, paramos mais uma vez para comprar uns pãezinhos na Sambooki, nos despedimos e fechamos o dia. Já estamos praticamente locais na Cidade Velha e arredores!
Dicas do dia:
- Pasta Basta, no mercadinho da Jaffo: massas deliciosas, fartas e baratas
- Pães e salgados do Sambooki
- Tour baratex pelo Monte das Oliveiras com a New Europe Tours
- A vista para a Cidade Velha do Monte das Oliveiras. Inesquecível
- A pracinha da alimentação no Quarteirão Judaico, na Tiferet Israel
Jerusalém – e possivelmente Israel – amanheceu fechada nesta terça-feira pós-Dia da Independência. Nada aberto. Tínhamos comprado uns pães na Sambooki e partimos cedinho para nosso tour por Massada e o Mar Morto, comprados na United Tours por US$ 90, tudo incluso, menos o almoço, claro. Partimos do David Citadel Hotel, do lado do shopping elite Mamila. Depois de cerca de uma hora, cruzando o Deserto de Judéia e o Mar Morto, chegamos a Massada.


Bom, há muito o que falar sobre Massada. Em linhas gerais, após a grande revolta dos judeus contra os romanos, alguns conseguiram fugir para uma fortaleza feita nas montanhas pelo rei Herodes. Mas, para dar o exemplo, o general Flavius foi incumbido de matar os rebeldes. Mas a fortaleza era praticamente intransponível. Então, o romano e seu exército de dezenas de milhares de homens construíram uma rampa, por onde invadiriam Massada. Herodes então, vendo o inevitável fim, ordenou que todos se suicidassem. Quando os romanos, enfim, entraram na cidade, se surpreenderam, pois todos estavam mortos. Esse mito inspira o Estado de Israel atual. Os recrutas do exército vão, eventualmente, jurar lealdade ali, em Massada. E dizem ‘Massada não cairá jamais’.




O lugar tem uma vista fantástica para o Mar Morto e o Deserto. Indescritível. Ainda pode-se ver parte da rampa e muita coisa original do tempo de Herodes. Você pode ver muito de como eles eram engenhosos – e como o clima mudou em algumas dezenas de centenas de anos. A trilha de subida pode ser feita a pé por 22 shekels ou de teleférico, 72 shekels subida e descida. Sinceramente, não vejo serventia na trilha de subir. Me parece muito algum tipo de ritual de autoflagelação, onde você caminha por escadas infinitas sob um sol escaldante no meio do deserto, perde energia e cerca de 1 hora e meia, tudo isso para economizar R$ 35. A trilha não tem nada de especial, nenhuma vista que não tenha no topo. Para mim, é a típica economia porca.
Aproveitamos muito nosso guia, o Rafi, que explicou muita coisa tintin por tintin. Gente fina mesmo ele. Passeamos um bocado pela cidade e, já à beira da exaustão pelo calor, descemos e voltamos para o ônibus. Próximo destino: spa Ein Gedi, para boiar na água supersalgada do Mar Morto.

Bom, honestamente, o spa é um lugar meio… bom, não vou empregar adjetivos pejorativos politicamente incorretos. Mas é um lugar com uma gente que parece que nunca viu sol, praia ou piscina. Churrasquinho pra lá, farofada pra cá… Enfim, pegamos nosso armário, almoçamos (foi um dos almoços mais caros da viagem) e partimos pro famoso mar. Andar pela sua beirada requer chinelo – o sal transforma andar numa tarefa literalmente espinhosa – e cuidado, afinal, você não pode nem pensar em afundar a cabeça. Primeiro, por que é difícil mesmo. Segundo, é perigosíssimo molhar os olhos com essa água. Então, devagarzinho, ficamos boiando ali. É muito louco mesmo. E a paisagem é completamente estonteante, com as montanhas de um lado, aquele mar azul do outro… Um oásis!


Se você tiver qualquer machucado, vai arder. Muito. Eu tinha uns arranhados nos dedos e ardia. Bom, depois de algum tempo ali – não muito – voltamos para o spa. Aproveitei para me lambuzar com a lama do Mar Morto, que, dizem, é bom para a pele. Não atestei a propriedade médica da gosma, mas que é divertido, é. Só evite ficar muito tempo, já que lama quando seca vira jarro. E depois pra tirar aquilo do seu corpo pode demorar de alguns minutos a alguns anos, imagino, dependendo de onde você tiver besuntado…

Muitos recomendam, ainda, os banhos de enxofre. Eu passei. Já experimentei isso uma vez e sei que esse cheiro é pior que trauma de infância: só sai com terapia da braba. Tomei um banho normal, troquei minhas roupas e caminho da roça para Jerusalém.
Enfim, o day trip é curto, mas vale a pena. Você pode ir por conta própria – seja de ônibus, seja de carro. E certamente vai sair mais barato. Mas a comodidade de ter alguém te explicando tudo, de não ter que pensar nada, onde parar, o que fazer e, sobretudo, de poder dormir na volta ou apreciar a paisagem na ida, não tem preço. Ou tem. Mas é baratinho.
Já em Jerusalém, andamos um pouco pelo burguês Mamila, que prova que shopping é shopping em qualquer canto do mundo. Dali, demos uma voltinha rápida pela Ben Yehuda, comemos num restaurante bem sem graça e fomos pra casa dormir. Afinal, era hora de repor o sono perdido da noite anterior. Mas pelo menos foi um dia com um march bem abaixo do nosso padrão…
Ah, uma coisa muito importante que aprendemos hoje é uma forma barata e malandra de se transferir de Telaviv para Jerusalém. Então, você chega no Ben Gurion, curte um ou dois dias em Telaviv e reserva um day tour por Massada e Mar Morto, por exemplo. Mas pode ser qualquer outro. Os ônibus saem de Telaviv e só depois pegam os outros turistas em Jerusalém. Você paga coisa de US$10 a mais. Mas põe sua bagagem no ônibus. Faz o tour e, na volta, em vez de ir para Telaviv, você desce em Jerusalém, a primeira parada. Pronto, economizou tempo, dinheiro e ainda fez um transfer confortabilíssimo.
Dicas do dia:
- Daytrip por Massada e Mar Morto. Mas você pode fazer por conta própria também, de ônibus ou alugando um carro
- Souvenires do Mar Morto, produtos de beleza e coisas afins
- Sentar e ficar olhando a paisagem do deserto, Mar Morto e as montanhas da Jordânia, do alto de Massada
- Passear por Jerusalém no dia da independência, completamente fechada e vazia
- Transfer ‘malandro’ de Telaviv para Jerusalém via daytrip: sai praticamente de graça
A missão hoje, dia da independência, era ir até o Museu do Holocausto, o Yad Vashem (יד ושם), passear o máximo possível pela Cidade Velha e comprar mantimentos. Todos nos avisaram que, do pôr-do-sol do Dia da Independência até o pôr-do-sol seguinte, absolutamente nada abriria.
Não acordamos muito cedo, mas por volta das 10h já estávamos a caminho do ônibus para o Museu do Holocausto. Antes, paramos numa confeitaria/café que tem por aqui, chamada Sambooki. Tem pães, biscoitos e lanches deliciosos. E precinhos de locais. Um amigo sugeriu a Aroma, mas eu preferi a Sambooki, que tinha em todo canto. E era mais gostoso!
Dali da Bem Yehuda, pegamos um ônibus, que custou 6.40 shekels, e seguimos em direção ao Museu. No caminho, deu 11 horas. E, assim como no dia anterior, tudo parou, em homenagem aos mortos para a construção e manutenção do Estado de Israel. Agora, por dois minutos. Todos no ônibus se levantaram, todos os carros pararam, pessoas que atravessavam a rua pararam, tudo parou, enquanto a sirene soou por todo o país… Impressionante!
Ao longo do caminho, também passamos pelo cemitério do Monte Herzl, onde milhares de pessoas prestavam suas homenagens aos entes perdidos e a figuras políticas, como Theodor Herzl, fundador da ideia moderna do Sionismo. Ali também estão militares mortos em serviço e ex-líderes de estado, como Golda Meir e Yitzhak Rabin. E todos os visitantes traziam adereços com a bandeira de Israel ou a estrela de David.
Mais adiante, descemos e andamos um pouco. Para chegar ao Museu do Holocausto, há uma van que sai de 15 em 15 minutos, já que o caminho é longo. Na entrada, uma surpresa: não era absolutamente nada daquilo que eu imaginava. Eu e Simone vimos museus do Holocausto em vários países, e todos são, senão solenes, tristes, dramáticos. Aqui é diferente. É solene e grave, sim, mas tem uma aura de esperança, com uma área verde irrepreensível, prédios baixos, compridos, arejados, tudo muito claro e, a despeito do tema do museu – o maior exemplo da crueldade humana – todos sorriem e são simpáticos. Um belo exemplo do clichê ‘a vida continua’.

O Yad Vashem é impressionante. Muitos pró-árabes acham tendencioso. Eu, como não tenho nenhuma antipatia a nenhum dos povos, achei rigorosamente fiel aos fatos. Tem a cronologia, tem o contexto histórico, tem interatividade, tem objetos que te fazem sentir no local, na época. Choca? Sim, choca. É muito doloroso ver, às vezes, como a estupidez humana não tem absolutamente limites. Há uma sala enorme, clara, parecida com algo espacial, onde estão guardados os registros dos milhões de mortos vítimas da estupidez em um inacreditável paredão de livros. Muitos sequer tiveram suas mortes contadas. Suas vidas foram sinistramente apagadas da História. Até então, milhões de mortos tinham um sentido etéreo para mim. Agora, tudo se tornou concreto. Aquilo realmente aconteceu.

Mas também é bonito ver, ao fim, exemplos de pessoas boas, que arriscaram suas vidas para salvar outras pessoas. Suas histórias são contadas em galerias e no ‘Jardim dos Justos. Ali, todos os heróis que ajudaram a salvar vidas durante a época sombria, têm árvores em sua homenagem. O mais famoso – e mais emocionante – é sem dúvida Oskar Schindler. Me senti muito honrado em estar diante da árvore em sua homenagem e à sua esposa. Para mim, é um dos grandes homens que jamais existiu.

Andando ainda pelo Yad Vashem, você tem exposições temporárias e vistas lindíssimas de Jerusalém e do verde que circunda o Monte Herzl. Um lugar de muita paz e reflexão. É muito bacana ver também as placas que homenageiam os judeus sobreviventes dos Campos de Concentração que vieram para o Brasil. Sem dúvida, dá uma impressão de que nosso país é a segunda casa de boa parte da população desse planeta.

Para o Yad Vashem, separe um bom pedaço de seu dia. Qualquer coisa entre quatro e seis horas seria suficiente para uma boa visita e uma das maiores aulas de História que você vai ter.
Dali, negociamos com um taxista para que ele nos levasse ao Knesset – o famoso parlamento israelense, sede do poder do país. Estamos cansados de vê-lo pela televisão, com a menorá de concreto e o brasão israelense a seu lado. Infelizmente, não havia visitas guiadas hoje. Mas pudemos passear bastante pela área.


Dali, voltamos para nossa velha Cidade Velha. Estávamos com um pouco de fome, então Simone comeu uma massa no Mozzarella e eu comi um pita falafel no Schwarma HaRova, ambos ficam na Tiferet Israel, no quarteirão judeu. Praticamente um em frente ao outro. Ali tem ainda um Holy Bagel e um Burgers Bar, todas boas e baratas opções para comer bem. E legal é no fim da tarde, quando a juventude ortodoxa para ali para lanchar e fazer farra.


Dali, fomos para o Muro das Lamentações. Ao contrário do dia anterior, hoje pudemos passar muito tempo ali. Fomos lá, pensamos na vida, pusemos nossos papéis… É um lugar muito interessante, com uma energia muito de paz. Os homens e mulheres têm pedaços separados do muro. Se você não for judeu – como eu – deve pegar um kipá (aquele chapéu que os judeus usam) para cobrir a cabeça. Os judeus são chamados ainda para orar dentro de uma caverna. Passamos muito tempo ali.

Na volta, também paramos para ver a Menorá de Ouro que fica na saída ao sul do Muro, subindo as escadas. Com 43kg de ouro e 2 metros de altura, é uma réplica daquela que teria existido durante a época do Terceiro Templo. Muito interessante e bonita.

Ainda tivemos tempo de passar pela Via Dolorosa mais uma vez. Percorremos algumas estações e, em seu início, no Mosteiro da Flagelação, pudemos ver um grupo de fiéis espanhóis reencenando o trajeto, com uma enorme cruz, inclusive. Seguimos eles por algum tempo. A gente fica com uma impressão de que a fé realmente é uma coisa incrível.




Ao fim da noite, vimos o enorme mosaico de luzes com a bandeira de Israel, em frente ao portão Jaffa. Dali, como já tínhamos comprado nossos suprimentos – pães, um enorme bagel de queijo de cabra com molho pesto e suco – partimos para casa para dormir.




Ledo engano. No dia da independência de Israel, há uma grande festa em Jerusalém. Onde? Na Praça Zion. Exatamente EM FRENTE ao nosso quarto. Ou seja, dormir era missão impossível. Além do mais, nosso hostel havia sido tomado por policiais, agentes do Mossad, militares, todo mundo fez um bunker no quarto vizinho. Curtimos um pouco a festa, mas fechamos a janela e, por volta das 3h, tudo cessou e, enfim, conseguimos dormir.

Dicas do dia:
- Chegue cedo ao Yad Vashem, o Museu do Holocausto, e pegue um audioguia
- Preste atenção às placas pelos caminhos do Yad Vashem
- Árvore para Oskar Schindler: fica no fim do jardim, quase na lojinha de souvenires, à esquerda de quem sai
- Na volta, pare no Knesset. Se puder, agende uma visita com antecedência
- Comida boa tem no Quarteirão Judeu, na rua Tifferet Yisrael
- Vá à Cidade Velha e ao Muro das Lamentações à noite. É inesquecível
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